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O ESTADO PODE ESCOLHER O QUE MERECE SUBIR AO PALCO?
A Câmara Municipal da Serra aprovou, por 17 votos favoráveis e nenhum contrário, o chamado “Projeto Anti-Oruam”, de autoria do vereador Cabo Rodrigues. O texto prevê multa de 100% do valor do contrato em caso de descumprimento, com os recursos destinados ao ensino fundamental da rede municipal.

Com a aprovação da "ANTI-ORUAM" o que muda e quem decide qual será o próximo alvo?
Lembro bem da época em que não havia uma lei específica para proibir o uso de celulares no alto-falante dentro dos ônibus. Em especial, alguns passageiros que gostavam de ouvir funk colocavam aquele som estourado para todo mundo ouvir, incomodando boa parte dos passageiros. E o pior: embora o incômodo atingisse muita gente, ninguém tinha coragem de reclamar, por medo de provocar uma confusão desnecessária.

Opinião de quem está no ponto cego do sistema

Leandro, você acredita que a aprovação desse projeto atende a uma necessidade real da população?
Eu enxergo esse tipo de situação em que essa lei foi colocada como algo que você “joga pra galera”, com o intuito de agradar sua base eleitoral para a próxima eleição, porque a Serra sempre foi mais fechada pra isso e, atualmente, quando tem show na região metropolitana, são shows feitos com dinheiro privado; os maiores, geralmente, em Vila Velha e Vitória.
Na sua percepção, esse tipo de problema acontece com frequência na Serra?
Em SP e RJ, pode até acontecer, mas aqui geralmente são em casas de show.
O que mudou ao longo do tempo ou a relação desses gêneros?
Na época em que eu escutava, era algo apreciado mais como uma arte, mas hoje ficou absurdo, porque as facções que oprimem os moradores são controladas pela geração Z, que é diferente dos “dinossauros” de antigamente; hoje, essa molecada não tem consciência de nada.
Como você avalia a proibição de apresentações de artistas do trap e do funk?
A pouco tempo, haveria uma audição (um mini show) em Vitória de um dos melhores artistas da cena do trap, que foi totalmente proibida — provavelmente pela Prefeitura de Vitória, cuja administração associa cultura de rua a “coisa de vagabundo”, sendo que, na Rua da Lama, sempre teve esse tipo de evento e dessa vez os artistas capixabas da cena do trap/funk não se manifestaram por covardia. Festas ilegais, como as em que houve registros de sexo feito a céu aberto, em meio a baile funk (onde já existem outros ilícitos), devem sim ser proibidas!
"Eu nunca vi nenhum show de cantor de trap/funk sendo realizado com dinheiro público; o que se vê muito é cantor de sertanejo e pagode nas festas patrocinadas sazonalmente pela Prefeitura da Serra, em todo tipo de evento"
Você vê risco em leis como essa?
A minha geração tem como diversão principal os bailes mais nostálgicos, onde a galera que se reúne é, na sua maioria, madura e de família. O risco que se corre quando esse tipo de lei se populariza é que podem ocorrer proibições de festas desse tipo, mesmo em casas de show privadas e particulares. Eu nunca vi nenhum show de cantor de trap/funk sendo realizado com dinheiro público; o que se vê muito é cantor de sertanejo e pagode nas festas patrocinadas sazonalmente pela Prefeitura da Serra, em todo tipo de evento.▪
"Nossa ideia de justiça na utilização do dinheiro público é extremamente seletiva"
E SE O GOVERNO DECIDISSE QUEM VOCÊ PODE OUVIR?
Observe que essa lei foi aprovada por unanimidade após os eventos de bailes com imoralidade sexual a céu aberto, no Rio de Janeiro, ganharem repercussão nacional. Nossa ideia de justiça na utilização do dinheiro público é extremamente seletiva. Isso não significa que eventos com música de cunho religioso terão os mesmos resultados que aqueles com temáticas imorais. No entanto, o mais correto seria não destinar verbas públicas a nenhum tipo de evento, gratuito ou pago, quando houver intenções eleitoreiras por trás. Seja você conservador, liberal ou revolucionário, o dinheiro que está nas mãos do Governo também é seu.
Então, pare para pensar: e se o direito de curtir o show do seu artista favorito fosse tirado de você? O caminho é entender que o Estado não é nosso amigo e que a máquina pública é maior do que nossos políticos de estimação. Eliminar as verbas públicas destinadas a todo tipo de festa seria o ideal. Afinal, já há dinheiro público investido em campanhas eleitorais. Por que deveríamos patrocinar também eventos de qualquer natureza? Discorda? Então vá atrás dos números e escandalize-se por conta própria...

